segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Jardineiro Fiel - Os “vampiros de almas” e o “continente perdido”




Quando o governo brasileiro brigou, há poucos anos atrás, com a indústria farmacêutica internacional pelo direito de quebrar patentes e baratear os custos de remédios destinados ao combate da AIDS, poucas pessoas pensaram a respeito do tamanho e poder do oponente com o qual se confrontava nosso pobre país.
Bilhões de dólares são anualmente movimentados por empresas que detêm o monopólio de fórmulas e também a primazia das pesquisas na área de medicamentos. São muito potentes e dispõe de muitos recursos (humanos, financeiros, materiais) os laboratórios e os conglomerados que representam a indústria de remédios estabelecida em países do primeiro mundo.
Esses conglomerados movimentam somas que superam o PIB (Produto Interno Bruto) da grande maioria dos países do mundo em que vivemos. Qualquer queda de braço com esses gigantes estabelece uma repetição da bíblica e mítica luta entre David e Golias. Para a sorte e esperança dos crédulos na justiça e na ética há sempre a possibilidade de acertar uma estilingada precisa entre os olhos desses assustadores oponentes...
O Jardineiro Fiel, baseado no livro do inglês John Le Carré e filmado pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles (que a cada nova produção comprova seu inegável talento e maestria em trabalhos que demonstram qualidades próprias de um habilidoso, inteligente, criativo e sedutor artesão), levanta questões relativas aos duvidosos interesses e práticas de “fictícias” empresas de grande porte do setor farmacêutico.
Dois-homens-conversando-num-hospital-precario
Remontando ao cinema político de qualidade que nos foi proporcionado por cineastas do porte de Visconti, Costa-Gravas e Pontecorvo, o filme de Meirelles costura sua trama a partir de denúncias e questionamentos, idas e vindas dos personagens, reviravoltas surpreendentes e um trabalho precioso de fotografia, edição, montagem e cenografia.
Há também um parentesco com filmes recentes, lançados a pouco tempo nos cinemas ou em DVDs, como O Informante, de Michael Mann, acerca das trapaças e negócios escusos engendrados pela indústria do tabaco a partir de suas matrizes norte-americanas.
Se não bastasse esse caráter crítico e questionador, O Jardineiro Fiel ainda nos coloca em contato com a devastadora realidade de um continente perdido, a África. Abandonada pelos países ricos, sobrevivendo à custa de doações que constituem migalhas, partilhada entre tiranos locais que nada mais são do que títeres do capital internacional, a África se decompõe e se torna cada dia mais terra de ninguém em grandes porções de seu território.
Suas reservas naturais continuam (como durante todo o século XX) sendo pilhadas pelos modernos “Pizarros” e “Hernán Cortez” em seus bem cortados ternos e com modernos celulares e notebooks. O pior, no entanto, é perceber que ocorre o esgotamento progressivo das reservas humanas. Como autênticos “vampiros de almas”, os “investidores” internacionais “sugam” o sangue, as energias e utilizam os pobres e esquálidos corpos africanos numa nova versão da escravidão dos tempos coloniais...
O que fazer? Denunciar, iniciar moções internacionais, ativar a participação das ONGs em favor do berço da humanidade, levar essa causa ao grande público e mobilizar esforços em favor dessa pobre e humilhada população. É nesse sentido que a produção de Fernando Meirelles, O Jardineiro Fiel ganha mais crédito e pertinência aos olhos do grande público. Há causas, mocinhos e bandidos, propósitos escusos e dignidade, traição e justiça (ainda que poética)...
O Jardineiro Fiel é vacina que contém poderosos anticorpos que ajudam no combate a corrupção de valores e práticas. Imunize-se! Assista já!
O Filme
Casal-sorrindo-se-olhando-de-frente
Quando o diplomata Justin Quayle (Ralph Fiennes, em mais uma sóbria e elegante aparição) termina sua palestra e se prepara para responder as perguntas dirigidas a ele pelo público ali presente ele nem imagina que a história de sua vida está começando a ser reescrita. Entre as pessoas que estão no recinto encontra-se Tessa (Rachel Weisz, em premiada e exuberante atuação), a mulher de sua vida e também a pessoa que modifica completamente a sua visão de mundo.
Enquanto ele é um ascendente jovem no complexo e disputado mundo da diplomacia internacional representando a Inglaterra no continente africano, sua jovem e sedutora esposa é uma ativista política envolvida em causas humanitárias que está no lugar mais explorado e desumano do mundo.
Essa explosiva combinação entre o talento, a argúcia e o engajamento de Tessa e as desigualdades e injustiças vividas pelos africanos é o motor de uma intricada trama de interesses econômicos escusos de grandes indústrias farmacêuticas do primeiro mundo e a morte/desaparecimento de pobres e desfavorecidos “cidadãos” africanos.
A partir de suas investigações a jovem Tessa chega a descobertas surpreendentes que envolvem não apenas bilhões de dólares em investimentos em pesquisa e aperfeiçoamento de remédios pelas indústrias que atuam nesses países africanos, mas também os governos de importantes nações do mundo ocidental “civilizado”, inclusive a própria Inglaterra...
Essas descobertas condenam a militante política à morte e também a indignidade perante seu próprio e amado esposo. Quayle, que além de suas reconhecidas habilidades no campo das relações entre países, é um devotado jardineiro a combater as ervas daninhas de seu impecável quintal tem que, a partir de investigações individuais retomar a trilha de sua mulher.
A partir disso ele entra no jogo dos bilhões em busca do resgate do nome de sua esposa e da verdade que envolve a morte de inocentes paupérrimos no já devastado e desolado cenário africano. Sua cabeça passa então a valer muito para os caçadores de recompensas e suas imunidades diplomáticas são então esquecidas e invalidadas...
Sobreviva ao jogo de caça entre gato e rato. Resista à tentação dos milhões de dólares em sua conta bancária pelo seu silêncio. Prenda a respiração e assista a mais esse imperdível, fascinante e envolvente filme de Fernando Meirelles. Cinema de primeira!

Fontes: http://www.youtube.com/watch?v=jCiwbvUFnYM
http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=525
Autoria: João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

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